A História de Andino - 4º ATO (parte 2)

Tem dias que acordamos demasiadamente com sono e em outros estupidamente acordados. Sem falar quando acordamos excitados.

Os estudiosos dizem que o corpo fala, talvez mais que a boca. Pois essa é controlada. Nem sempre... mas deixemo-la calada. Já o corpo é uma espécie de fábula onde tudo e todos giram dentro de uma marca indelével que não aparece. Na verdade sim, mas só depois de muita prece.
As fábulas são verdadeiras, elas não tem o porque mentir. A trama de nosso corpo também é verdadeira, ela saber agir. O corpo se inclina para frente, mesmo se o rosto não sorrir.
A carne é franca e traduz grande parte de nosso interior. Enquanto a boca sangra, o coração pulsa de amor. Todo o conjunto quer celebrar a fábula contada por nosso corpo. A alma quer se expressar. Deixemo-la viver um pouco.
Não obstante a qualquer expressão corporal e física, a expressão interna é mais poderosa. Aos poucos fui percebendo que recebi por divina inspiração a capacidade de enxergar esses sentimentos por através dos olhos das pessoas.
Tal como li o da inocente ladra no centro da cidade. Vi, li e vivi junto a ela uma história.
Se você passa e não me olha porque não gosta, faz para mim não me gostar, pois fiz de tudo para me olhar.
Seus olhos são como albores que a mim presta favores quando me olham um pouco contraídos, levantando suas maçãs, esboçando um sorriso.
Passamos despercebidos em meio a multidão, pois todos gozam a calma do que é certo e do que não é certo não.
Logo saio e daqui me vou, parto com o seu genuíno amor. Inabitarei partes, que foi por outros, inabitadas. Dando-lhe razão e espera na sua estrada.
Conheci naquele dia mais pessoas interessantes. Defrontei-me com uma mulher bonita, com um olhar pobre. Na hora senti um distanciato, ou seja, senti a responsabilidade de manter uma distância entre nós, como se eu fosse responsável por uma possível aproximação, mas como ela não queria se aproximar eu tive que manter a distância. É interessante que eu não sabia que tais sentimentos não eram comuns a maioria das pessoas. Somente após descobrir que era um dos únicos a isso sentir, é que comecei a nomear tais sentimentos. Por exemplo, meu cachorro quando eu saio de casa ele faz uma cara de saudasmo, que é aquela saudade daquilo que ainda não se foi.
Sempre conheço pessoas interessantes, mesmo sem falar com elas. Algumas são mulheres pervertidas e outras inocentes. Algumas pessoas interessantes e outras nem tanto.
Conheci um homem que errava em espírito. Seu coração é bondoso e tem objetivos dignos. É um tipo de líder religioso. Ele é presente na vida de seus liderados, marido fiel. É daqueles que pensa que a mulher é uma criada, mas que a paga satisfazendo todos os desejos materiais dela.
Esse líder religioso foi ensinado que deveria ser duro com seus liderados. Ele falou que deveria realizar sua prédica com poder. Por isso errava em espírito, ou seja, ele faz o que é errado porque assim foi ensinado, já que para ter poder (ou em outras palavras influência) sobre outra pessoa não é preciso ser duro.
Passou ao me lado uma menina muito linda, de corpo dotado. Enquanto passava eu tive um remogo. Uma luta interna contra o pecado no pensamento. O remogo é interessante porque ninguém sabe quando alguém está tendo um. Enquanto passava ao lado dela falei:

Andino – Bom dia!
Menina – Bom dia – respondeu ela com um sorriso de receptida.

Parei e perguntei o nome dela, ela disse:

Menina – Renata.

Ou talvez:

Menina – Carol.

Conversamos algum tempo, flertei com ela e logo já estávamos íntimos.
Não sei como eu ainda professo receber divina inspiração e dentre meus dedos escorregar a caneta escrevendo palavras de salvação. De quem vêm estas palavras já que minha mão serve de instrumento de uma pérfida destruição?
A menina linda e inocente é, para aquele barco, atraída por um comandante sem vida. Egoísmo puro é acabar com a inocência enquanto dentro de si se acostuma com a fraqueza. Começar a só, planejar o gozo de vida alheia e um novo futuro rabiscar.
Tudo se faz para ser levado à caneta, para virar arte em poema.
Tem também um homem branco de cabelos grisalhos que estava sentado com a coluna ereta e pernas propositalmente alinhadas. Ele está à espera de alguém ou alguma coisa. Definitivamente aquele homem é bem mais do que vejo. Mas ele acabava sendo aprevisto, tentando ser diferente do comum e achando que é diferente de todos, quando outros estão com a mesma intenção do que ele. Não me interessei muito nele, não é receptivo.
Meu dia foi repleto de pessoas com histórias diferentes e aspirações diversas. Vivi várias histórias interessantes. Não obstante, quando me aproveitava da vida alheia em miúdos e centelhas de gorjetas divinamente ofertadas, um homem me olhou. Seus olhos me recriminavam e senti meu espírito enrijecer. O homem vestia roupas nada usuais e um chapéu bonito. Tinha postura de um tirano, mas passava despercebido. Veio ao encontro de meus olhos e me perguntou:

Homem – Por que fazes isto, Andino?
Andino – Quem é você?
Homem – Tu sempre usurpas das vidas alheias como se os outros devessem algo a ti. As pessoas têm compromisso com suas próprias vidas, não as perturbe.
Andino – Não sei do que está falando e nem quem é você.
Homem – Pode-me chamar de Sir William.
Andino – Bem, sir William. Não sei do que você está falando, tenho que ir agora. Até a próxima.

Com certeza aquele homem me conhece, mas quem é ele? O que quer de mim? Senti um terrível temor, será que ele é o mau em pessoa?
O dia passou e fiquei com aquele encontro na mente. No outro dia passeando novamente aquele Sir William apareceu:

Andino – Quem é você?
Sir William – Sou teu amigo, Andino. Estou aqui para lhe oferecer algo.
Andino – O que?
Sir William – Você tem um dom chamado de Olhus.
Andino – Olhus? O que significa?
Sir William – Significa que tu podes olhar por meio das pessoas, do tempo, do espaço e dos sentimentos.

Imaginei naquele mesmo instante uma história esquisita.

Sir William – O que vira agora?
Andino – Como assim?
Sir William – Sei que algo viu, pode ser real ou não. Normal ou fantástico. Mas algo aconteceu dentro de ti no exato momento que falei contigo sobre teu dom.

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